As fases do ensino de Virtude

Virtude e Maturidade

Quando a maioria das pessoas escuta a palavra Virtude, pensa imediatamente em alguma qualidade adicional, algo extra que nos faz ser especialmente bonzinhos ou nobres.

Nada poderia estar mais distante da verdade.

As Virtudes, como vimos em outros artigos, representam a perfeição de certas estruturas da pessoa humana.

Em outras palavras, ser mais virtuoso significa ser mais HUMANO. Viver uma vida de vícios (o oposto das virtudes) significa gradualmente se desumanizar.

Crescer em virtude, portanto, significa se tornar o melhor que você pode ser. É isso que todo educador busca gerar em seus educandos.

No entanto, essas perfeições não surgem todas de uma vez só. Elas vão sendo desenvolvidas aos poucos com o passar das fases da vida.

Isto é, no melhor dos casos.

Não se pode esperar de uma criança o mesmo grau de perfeição de um adulto. Ela ainda não desenvolveu muitas capacidades, não tem estruturas para sustentar esse nível de virtude.

Portanto, para cada fase está prevista certa perfeição. A essa perfeição chamamos maturidade.

Pense, você não chamaria um bebê que chora por comida de imaturo, sim? Nem mesmo um adolescente que não entende perfeitamente o funcionamento da vida adulta. Essas não são perfeições exigíveis a essas respectivas fases.

No entanto, e se for um adolescente chorando por querer um sorvete? A coisa fica um pouco mais ridícula, não?

Isso porque existe certa perfeição, certa virtude, que já deveria estar firme nesse adolescente. Ele deveria ser capaz de controlar seus desejos e afetos violentos. Se não consegue, percebemos uma imperfeição grave: uma evidente imaturidade.

Um bom processo educativo é aquele que, juntamente, reconhece o que é próprio de cada fase e ajuda o educando a alcançar a perfeição esperada para que possa avançar.

Falaremos a seguir de tais fases e de como educá-las.

Realmente Virtude?

Nesse ponto, tenho que confessar algo: eu menti no título desse artigo.

Bom, não propriamente uma mentira, mas um encurtamento da verdade.

A verdade é que não é possível propriamente ensinar virtude. Isso porque a virtude, por sua natureza, precisa ser uma decisão da vontade, consciente e livre.

Por essa razão – por mais que isso possa chocar alguns –, crianças (fora raríssimas excessões) não são capazes de virtude real. Falta-lhes a capacidade de decisões plenamente conscientes para tanto.

O que, sim, podemos fazer é formar nelas bons hábitos que facilitarão, mais tarde, a decisão consciente pela virtude, bem como oferecer fontes de emulação que instiguem nelas o desejo por serem virtuosas.

É desses hábitos e fontes que falaremos na maior parte deste artigo.

A Temperança e a primeira infância

virtude

Uma coisa importante de se ter em mente é que crianças não são anjos. Não nascemos já com nossas faculdades espirituais (vontade e inteligência) desenvolvidas e nossos afetos chegam a este mundo em desordem.

Assim, a primeira tarefa de todo bom educador é ordenar aquilo que em primeiro lugar está mais desordenado.

Deste modo, a primeira preocupação com as crianças bem pequenas é a moderação do apetite concupiscível.

Isso significa, na esmagadora maioria dos casos, moderar os desejos e impulsos da criança.

De forma mais prática, devemos ensinar à criança pequena que ela não vai fazer tudo que quer, na hora que quer ou na medida que quer!

Isso pode parecer cruel, mas lembre-se: os afetos dela não pedem as coisas na medida certa. Eles pedem sempre mais!

Pense em você mesmo. O que aconteceria se você se permitisse comer todos os doces que deseja? Ou gastar todo o dinheiro quando dá vontade? Ou dormir tanto quanto gostaria?

Haveria consequências terríveis, não?

Pois é esse hábito que precisa estar firme ao final da primeira infância: a capacidade de dizer “não” a si mesmo.

Aqui estão algumas formas de formar esse bom hábito na primeira infância:

  • Não dar de comer apenas o que a criança gosta.
  • Sempre colocar limites no prazer: quer 5 bolachas, comerá 4; quer brincar duas horas, uma e meia é suficiente.
  • Ter hora e lugar para as refeições e não permitir lanchinhos fora de hora.
  • Reduzir ao máximo as telas.
  • Colocar consequências firmes ao descontrole emocional.

 

Uma boa história para educar o imaginário nesse sentido é a versão dos Três Porquinhos do Fabuloso Livro Verde, ou o capítulo Manjar Turco em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.

A Fortaleza e o final da infância

Quando a criança entra na idade da razão (por volta dos seis ou sete anos), já podemos começar a exigir dela um pouco mais.

Já tendo controlado o concupiscível, agora vamos estimular e direcionar o irascível.

Nessa fase, a criança deve se acostumar a suportar certo grau de desconforto e a se forçar a realizar tarefas exigentes.

Muitos pais têm dificuldade neste ponto formativo por medo de exigir demais ou “sobrecarregar” a criança. Outros, de fato, exigem demais.

É necessário um discernimento racional para saber o quanto se pode exigir, tanto física quanto intelectualmente.

No entanto, é importante que se exija! E deve-se exigir sempre um pouquinho mais (bem pouquinho) que o limite.

O que isso significa? Significa que quando a criança começar a reclamar, é o momento de exigir um pouco mais e depois parar.

No início, quando ela ainda é pequena, esse limite virá rápido. Ela vai começar a reclamar à menor exigência. Com o tempo ela vai percebendo que reclamar não adianta e o nível de exigência vai aumentando.

Sei que isso parece terrível para alguns, mas entenda: você não está exigindo por que precisa da tarefa. Eu garanto que você faria melhor e mais rápido que ele! Você está exigindo para torná-lo capaz de exigir de si mesmo.

Imagine se você não fosse capaz de exigir de si mesmo o ato de se levantar para trabalhar? Ou de se forçar a trocar as fraldas do bebê? Ou mesmo de rezar e ir à missa quando está sem vontade?

Como seria a vida? Inviável, não?

Portanto, é esse hábito que precisa estar bem formado ao final da infância: a capacidade de dizer os “sim” necessários, mas desagradáveis.

Eis algumas formas de formar esse hábito ao final da infância:

  • Designar tarefas da casa como lavar a louça, o banheiro, tirar o lixo (para os pequenos), conforme as capacidades de cada idade.
  • Acompanhar e exigir o cumprimento das tarefas do colégio com o máximo de excelência.
  • Exigir que acorde cedo e pontualmente.
  • Colocar a criança em uma atividade física desafiadora, como uma luta marcial ou esporte.

 

Boas leituras para estimular esse bom hábito são O Hobbit e A Viagem ao Centro da Terra.

A Justiça e a adolescência

É na adolescência que as coisas começam a mudar, no sentido da formação moral. Aqui já começam a surgir os primeiros movimentos mais plenamente conscientes do espírito e, portanto, a possibilidade de virtude verdadeira.

Ainda não plenamente movido pela inteligência, o adolescente deve ser introduzido ao conceito de Dever.

No entanto, ao contrário do que alguns podem pensar, aqui não se trata de um dever frio e arbitrário. É nesse momento que precisamos começar a justificar aquilo que exigimos.

Parece contraintuitivo, não? Podemos achar que o melhor seria que se cumprissem as obrigações sem explicação alguma. No entanto, temos que lembrar que a Vontade começa a dar os primeiros passos. Para que ele ao menos tenha a possibilidade de escolher pelo dever, ele tem que entender por que tal coisa é dever.

Isso não significa que cumprir ou não cumprir o dever se torna opcional, mas sim que, agora, o direito de ter explicada a razão por detrás da exigência é garantido.

Algo como: “Meu filho, você vai ter que cumprir de uma forma ou de outra, mas, se você quiser, posso te explicar porque é assim. Eu confio na sua inteligência para entender esse porquê.”

Percebem a mudança da infância para a adolescência? Percebem que recebe-se um grau de confiança, um certo reconhecimento? Ele tem que perceber que não é mais como uma criança que não entende porque faz as coisas. Ele já é grandinho para entender!

Se ele teimar, pode-se dizer algo como: “Entendo. Bem, talvez você não esteja tão crescido como eu pensava que estivesse. Do mesmo jeito, tem que cumprir.”

Acredite, por mais revoltoso que seja, nenhum adolescente quer ser tratado como criança. No fundo, ele quer crescer.

Nessa fase, há menos ações pontuais e mais deveres que podemos exigir e, é claro, explicar.

  • Respeito para com os pais: devemos aos pais a vida e a liderança da casa. Pela vida, devemos gratidão. Pela liderança, obediência. Enquanto os pais forem os gestores da casa, eles têm que ter o poder de conduzir seus membros.
  • Partilha das tarefas da casa: aquele que usufrui de determinado bem tem que arcar com parte do custo de sua manutenção. Pode-se perguntar para ele: “Por que seria justo que alguém tivesse que arcar com as suas necessidades?” Cada membro da comunidade precisa participar da manutenção.
  • Dedicação aos estudos: esse é, na verdade, um dever para com ele mesmo! A única pessoa prejudicada, em caso de fracasso, é ele. Cada um tem um dever para consigo de buscar a própria excelência e realização.
  • Obrigações de Piedade: assim como devemos aos pais a vida, devemos a Deus a vida e todo o resto! Assim, cumprimos com as obrigações de fé porque é justo que o façamos.

 

Se os pais têm dificuldade de explicar os deveres para o filho, podem sempre buscar a ajuda de um bom professor ou sábio sacerdote. Ainda assim, o melhor é que os pais sejam bem formados e capazes de responder as dúvidas o melhor possível.

Boas obras literárias sobre o cumprimento do dever são O Senhor dos Anéis e Drácula de Bram Stoker.

O Caso excepcional da Castidade

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Aqui há uma exceção em que, na adolescência, volta-se a um afeto concupiscível, grupo que já deveria ter sido trabalhado.

Isso acontece porque esse afeto em particular aparece (idealmente) apenas nessa fase da vida e, por isso, é aqui que se deve atentar para ele.

Refiro-me aqui ao instinto reprodutivo.

Em termos bastante biológicos, é na adolescência que o corpo se torna apto à reprodução. Por essa razão, a atração pelo sexo oposto começa a aflorar.

No entanto, existe um grande contrassenso muito popular nos tempos atuais que gostaria de desmistificar: o melhor a fazer nessa fase não é chamar a atenção ao assunto!

Existem aqueles que pregam que a “conscientização” e o “autoconhecimento” para adolescentes é algo recomendável. Eles não entendem que todo esse processo não é racional, mas afetivo-instintivo.

Isso significa que, quanto mais se chama atenção ao assunto, mais se estimula a curiosidade e o impulso.

Portanto, meus conselhos para pais de adolescentes quanto à formação da Castidade são:

  • Não chamar atenção ao assunto antes da hora.
  • Não estimular namoricos ou coisas do tipo (Namoro é coisa de adultos em discernimento, não de adolescentes).Evitar ao máximo o contato com mídias permissivas ou de conteúdo vulgar.
  • Evitar o acesso desacompanhado a telas (Desincentivo fortemente computadores pessoais em quartos fechados).
  • Quando o assunto surgir da parte deles, falar com sobriedade sobre a beleza e santidade do matrimônio e sobre o respeito ao sexo oposto (esse último, especialmente para os meninos).

A Prudência e a Juventude

Virtude

Esse é um ponto especialmente difícil para formadores, pois nessa fase a formação já depende muito mais do formando do que do educador.

Se foi feito um bom trabalho na formação literária, intelectual e moral até aqui, o natural é que a capacidade de reflexão do jovem seja razoável.

No entanto, ainda existem alguns vetores que o formador pode estimular e alguns auxílios que pode oferecer.

  • Incentivar a reflexão sobre o passado e sobre a própria história.
  • Pedir razões de decisões tomadas e auxiliar no discernimento.
  • Incentivar a meditação sobre o presente, sobre o que está acontecendo no mundo, no país, na igreja e na vida pessoal.
  • Incentivar o pensamento sobre o futuro, estimular planos e projetos, ajudar a organizá-los.
  • Incentivar a busca de um bom diretor espiritual.
  • Oferecer conselho sempre que solicitado.

 

Algo muito difícil de se aceitar enquanto formador é que nossa função nessa fase não é mais central, mas auxiliar. Aqui, exigir e forçar já não é tão útil. Evidentemente, existem coisas que ainda há de se exigir, mas o trabalho principal é de conduzir a uma decisão voluntária, sem a qual o trabalho é vão.

Novamente, se foi feito um bom trabalho até o momento da juventude, o amadurecimento dessa fase se dá de forma mais natural.

O problema maior está quando o educando chega nessa fase ainda não tendo completado as perfeições exigidas por fases anteriores. Em outras palavras, quando o jovem ainda é um “crianção”.

A Magnanimidade e a Vida Adulta

Virtude

Por fim, temos o indivíduo que chega à idade adulta. A marca dessa fase é a busca pela excelência e a entrega de vida por algo maior do que nós mesmos.

Esse ser humano, já maduro, completo, percebe seu chamado à grandeza da Obra da Salvação e ao Céu.

Ele é marcado pela consciência da finitude de seu tempo e pelo desejo de fazer de sua vida a maior realização que conseguir.

A pessoa que se encontra nessa fase gasta seu tempo, recursos e forças na luta contra seus vícios, na aquisição das virtudes em nível heróico e no serviço a Deus em uma Vocação legítima.

Agora, e se o problema é alguém que ainda não amadureceu? Como fazer para ajudar?

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Escrito por Prof. João Gabriel

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