Obediência é uma coisa boa?
A maioria de nós tem uma resistência muito grande a essa palavra. Fomos educados em um sistema de educação que, por um lado, é marxista e opõe liderança e liderados como dois lados de um literal conflito armado, e que, por outro, é liberal e coloca os interesses individuais acima de quaisquer outros.
Qualquer sinal de autoridade, portanto, surge para nós como uma invasão, como um ato de tirania que quer roubar nossos direitos ou nos transformar em massa oprimida.
Obediência, então, aparece para nós como um gesto de submissão irracional inaceitável! Somos compelidos à rebelião.
Gera-se assim a desunião e descoordenação entre as pessoas e instaura-se a luta de todos contra todos: filhos contra pais, alunos contra professores, fiéis contra sacerdotes, cidadãos contra estado.
E o único beneficiado desse caos social é aquele que deseja a separação entre os homens, Aquele que Desune (do grego, diábolos), o primeiro filho a se rebelar contra seu Pai.
Isso já deixa claro a resposta para nossa questão. Sim, a Obediência é um santo remédio para um mal que literalmente causou todos os problemas da humanidade.
Eu sei como essa afirmação pode gerar revolta imediata em muitos dos senhores.
“O senhor está dizendo que devemos obedecer cegamente a qualquer um?”
“Devemos submeter nossa vontade a todos como gado?”
“Opressor!”
Quase consigo ouvir os clamores das almas educadas para a revolução, mas, antes de me condenarem à guilhotina, deixem-me especificar o que quero dizer por Obediência.
Como toda Virtude – pois, sim, a Obediência é uma virtude –, a que estudamos agora possui um objeto e uma medida. Fora dos limites desse objeto e medida, aquilo que seria virtude, de fato, se torna vício.
Para melhor distinguir tais limites, vou deixar aqui uma definição da virtude da Obediência.
Obediência: virtude anexa da virtude cardeal da Justiça, hábito de submeter a vontade a toda autoridade legítima, dentro daquilo que compete a tal autoridade.
Tendo em mãos essa definição, podemos distinguir as partes dessa virtude.

Autoridade e obediência.
A primeira palavra mal concebida dentro do assunto da obediência é o conceito de autoridade.
Assim como a própria virtude estudada, a palavra autoridade é rejeitada prontamente pelos corações tanto marxistas quanto liberais. Isso porque nem uns nem outros entendem a profundidade do que é autoridade, ou do que deveria ser, ao menos.
Vamos, então, partir de uma premissa básica: todo grupo de seres humanos que desejam realizar uma tarefa juntos precisa de organização.
Imagine um grupo de alunos querendo fazer um trabalho de escola: digamos que cada um faça questão de fazer cada coisa do seu jeito. Toda vez que uma decisão comum tem que ser tomada, eles se juntam e só agem se a decisão for unânime. Qualquer um que seja contrariado se recusa a fazer sua parte do trabalho.
E então, como você acha que vai sair o dito trabalho? Já passou por alguma experiência assim?
Digamos que seja diferente, então, e que um dos alunos, o mais forte, suprima todas as vontades dos demais e os obrigue a fazer tudo do seu jeito; e, se algo sai de uma forma diferente do que quer, ele retira a pessoa da função e faz ele mesmo.
O trabalho provavelmente vai até sair um pouco melhor, mas parece um bom trabalho? As pessoas envolvidas vão escolher realizar esse trabalho uma segunda vez?
Parece que não.
Isso acontece porque em ambas as situações falta a verdadeira autoridade.
No primeiro caso, não há ninguém para mediar os conflitos, não há uma palavra final, não há um coordenador de esforço e, por isso, o trabalho não dá frutos.
O Caos nunca gera perfeição. O Caos é burro.
No segundo caso, existe um poder, mas não um poder mediador. O poder aqui é egocêntrico, movido pelos próprios interesses e preocupado mais com o resultado do que com as pessoas que vão produzi-lo.
Em todo trabalho humano, o mais importante são os seres humanos envolvidos. Abaixo do próprio Deus, a pessoa humana é sempre o valor máximo.
Coloquemos, agora, um bom líder nesta conta. Digamos que há um aluno que seja mais hábil no trato que os demais e assuma a função de chefe do grupo.
Esse chefe está, sim, preocupado com o resultado do trabalho, mas também com o bem-estar dos membros da equipe. Ele escuta a posição de cada um, pensa na melhor solução e, por fim, decide que rumo tomar.
Ele conhece cada um dos membros e, por isso, sabe o que cada um faz de melhor, colocando cada um na posição onde vai ser mais bem-sucedido. Ele não se preocupa em aparecer, nem em fazer coisas mais importantes. Ele quer que cada um esteja fazendo o melhor de si e que o resultado seja o melhor possível.
Claro, alguns dos membros vão discordar de algumas decisões, mas é melhor seguir um bom líder em algo de que discordamos do que mergulhar o grupo na indecisão e inação.
Essa é a verdadeira e legítima autoridade: aquela que tem, de fato, o poder de agir e, portanto, comandar sobre as partes, mas que usa esse poder para que o objetivo daquela associação seja cumprido, respeitando a individualidade de cada um dos membros.
Isso é particularmente visível nos três tipos principais de autoridade humana:
Família: o objetivo dessa comunidade e o bem individual de cada um são a mesma coisa. O objetivo é a salvação e realização dos membros. Ou seja, a autoridade dos pais serve para gerar o bem real para os filhos. Um filho inteligente obedece a um bom pai, pois sabe que seu único objetivo é lhe favorecer.
Estado: o objetivo real de um estado é o bem-estar e realização de seus membros. Em um estado são, a autoridade pública seria utilizada justamente para o bem de cada um. Um cidadão honesto não teria motivos para recear servir ao seu país, sabendo que seu próprio bem depende do sucesso da nação.
Igreja: o objetivo da Igreja é um só, a saber, a salvação das almas. Por essa razão, ela tem poder e autoridade sobre as almas dos fiéis, e o fiel sábio a obedece, pois entende que o fim último de tal autoridade é sua própria felicidade eterna.
Isso, no entanto, é o caso de uma autoridade legítima ideal, como ela foi feita para ser. Sabemos, certamente, que não é assim que acontece sempre na realidade.
Portanto, vamos agora estabelecer dois tipos diferentes de autoridade e os limites do poder das mesmas.
Dois tipos de autoridade.

A separação que vamos fazer agora é entre a autoridade exercida entre desiguais e a exercida entre iguais.
A primeira é a mais ideal: é aquela autoridade exercida por alguém que é superior em algum aspecto sobre alguém que lhe é inferior naquele mesmo aspecto, justamente com o objetivo de favorecer o inferior, muitas vezes fazendo-o ascender ao grau superior.
Esse é o tipo de autoridade exercida pelos pais, professores e pela Igreja.
Autoridade dos pais sobre os filhos:
Existe uma tolice endêmica inculcada em nossos jovens pelo igualitarismo marxista de que há pouca ou nenhuma diferença entre eles mesmos e seus pais.
Em outras palavras: você coloca uma pessoa de 40 anos de estudo e experiência de vida ao lado de uma com 14 anos de idade, seis dos quais foram passados de forma completamente iletrada. Depois, você convence a segunda de que ela é perfeitamente idêntica à primeira. Mais! Ela, na verdade, é até mais esperta que a primeira! Mais moderna!
Faz todo sentido, não?! Não passa na cabeça dessa criatura que esses indivíduos de 40 anos já tiveram 14 um dia! Que eles passaram pelas mesmas coisas e as venceram em maior ou menor grau!
Muitos dos senhores pais, lendo essas palavras, devem estar sacudindo a cabeça positivamente, mas provavelmente alimentam essa cultura.
O que você responde quando te chamam de “senhor” ou “senhora”? O que você diz quando te falam que você não é mais jovem?
“Ah, o Senhor está no céu!”
“Sou jovem de espírito!”
Esse tipo de resposta passa pelos seus lábios?
Sabe o que é isso? É justamente o endeusamento irracional da juventude! É a afirmação verbal de que o vigor físico e a tendência à diversão valem mais que a experiência e a sabedoria!
É a afirmação de que o corpo vale mais que o espírito.
Eis os motivos pelos quais Deus confia os filhos aos pais:
- 1) Os pais são mais experientes e, portanto, na esmagadora maioria das vezes, vão saber melhor como agir.
- 2) Os pais sabem mais do que os filhos. Não importa quão esperta a criança seja, até o fim da adolescência é improvável que ela saiba mais sobre o mundo que seus pais.
- 3) Os pais estão comprometidos com o sucesso de seus filhos.
Aos jovens e adolescentes: meu caro, pare de agir com arrogância diante de seus pais. Você só está fazendo um papel ridículo. Você pode discordar e colocar seu ponto de vista, mas com argumentos e de uma maneira racional. E, sim, mesmo assim, seus pais têm o direito de dar a palavra final.
Um lembrete: existe uma promessa, positiva e negativa, quanto ao 4º mandamento. Leia Eclesiástico 3, 1-18.
Aos pais: meu amigo, sei que muitas vezes nos sentimos acuados de exercer nossa autoridade por medo de intimidar ou causar desgosto naqueles que amamos. No entanto, devemos lembrar de algo indispensável: exercemos nossa autoridade pelo bem deles, não nosso. Abrir mão de um pouco do afeto deles por amor a eles faz parte de nossa missão e é, muitas vezes, nosso maior sacrifício.
Autoridade do professor sobre os alunos.

Falo aqui na posição de professor. Meus caros alunos, naquilo que concerne à especialização de seu mestre, você acredita mesmo que sabe mais do que ele?
A “Educação Positiva”, o “protagonismo do estudante”, geraram a ilusão de que um aluno de 17 anos que entra pela primeira vez em uma sala de aula universitária sabe tanto quanto o pobre coitado sentado na cátedra.
Meu filho, o que diabos você foi fazer nessa sala de aula, então?
Parece uma piada, mas já vi um caso em que, numa turma de 1º ano de Medicina, o professor, cirurgião com anos de carreira, afirmou para seus alunos que a opinião deles valia mais do que a sua própria.
Se posso me permitir o exemplo tétrico, imagine que você estivesse nessa sala de aula. Imagine que você caísse e tivesse uma fratura exposta. Quem você gostaria que tratasse do ferimento? O professor cirurgião experiente ou um aluno de 1º ano recém-saído do cursinho?
A resposta é óbvia, não? Sabe por quê? Porque a opinião desses alunos não vale, nem de longe, tanto quanto a do professor.
É uma falácia.
Isso não significa que o professor seja infalível. Não significa que ele seja moralmente superior. Não significa nem mesmo que você nunca possa questionar.
Significa sim que, por padrão, a opinião dele naquela matéria vale mais do que a sua e que é extremamente mais provável que ele tenha algo a te ensinar naquele assunto do que o contrário.
Esse é um dos grandes segredos da obediência: a santa humildade da qual ela brota sempre beneficia quem a pratica.
Se você obedecer um professor indigno, você perde pouco e ganha em humildade. Se obedecer um professor digno, pode ganhar tesouros imensos de conhecimento e sabedoria, e ainda um pouco mais de humildade.
Sua arrogância diante de um mestre só te deixa mais arrogante.
E mais burro.
Aos professores: meu caro, não tenha medo de exercer sua autoridade em sala de aula. Não para que eles “fiquem quietos” ou “não te incomodem”, mas para que eles façam aquilo que vai torná-los melhores e mais santos.
A Autoridade da Igreja sobre os fiéis.

Por fim, temos uma das mais difíceis formas de obediência e uma das quais nós mais frequentemente negligenciamos: a obediência à Santa Igreja.
Antes que os clamores revolucionários se levantem, não estou afirmando aqui que homens dentro da igreja não possam errar, nem que não existam limites para a obediência a esses mesmos homens.
Estou dizendo apenas que o indivíduo que pressupõe que ele, no auge da sabedoria de seus 30 ou 40 anos, está em condições de julgar ele mesmo as orientações de uma instituição de dois mil anos, fundada e conduzida pelo próprio Deus, comete a mesma tolice adolescente do jovem que se acha mais esperto que o pai.
Não estou dizendo que não se pode pensar a respeito das orientações, não é isso. Estou me referindo àquele espírito que já se aproxima delas pronto para “escolher” as que lhe agradam e as que não.
Ironicamente, aquelas que ele determina estarem “desatualizadas” geralmente estão diretamente relacionadas a um interesse pessoal e, na maioria das vezes, ao prazer.
A Igreja não deseja “obediência cega”, como pensam alguns. Ao contrário! Ela estimula e muito o pensamento dos fiéis sobre as questões que são flexíveis. Basta ler a Encíclica Fides et Ratio de São João Paulo II.
No entanto, essa reflexão deve ser sincera e desejando alcançar a verdade e o bem geral da Igreja e de seus membros, não uma desculpa para pecar.
Mais do que qualquer outra, a obediência com relação à Igreja é um grande ato de fé. Nós muitas vezes não entendemos perfeitamente, mas, enquanto não entendemos, obedecemos.
Podemos e devemos tentar entender. Podemos e devemos pedir explicações, questionar (no sentido de interrogar) e meditar. No entanto, enquanto não temos clareza (e clareza quer dizer saber explicar racionalmente o porquê), humildemente pressupomos que a sabedoria da Igreja é maior que a nossa.
Nesse sentido, sim, a obediência dos filhos para com os pais é, de certa forma, uma espécie de treinamento de fé. Nem sempre entendemos, mas obedecemos e confiamos em nossos pais por saber que são mais sábios que nós e querem nosso bem.
A Autoridade entre iguais
Existe ainda uma autoridade menos ideal, que é aquela exercida entre iguais.
Por que ela é menos ideal? Porque o melhor é sempre que a pessoa que comanda os esforços coletivos seja aquela que é melhor que os outros em algum sentido: mais virtuosa, mais santa, mais entendida ou sábia.
No entanto, no mundo real, a verdade é que nem sempre temos pessoas mais excelentes para colocar no comando e, às vezes, não as colocamos mesmo quando as temos.
Isso anula o propósito da autoridade? De forma alguma. Ainda é necessário que exista uma força coordenadora para que os esforços humanos não se percam no caos dos interesses pessoais.
Nesse caso, temos a obrigação de obedecer, mesmo que a autoridade não nos seja humanamente ou intelectualmente superior. Embora não seja ideal, ela é legítima e, por incrível que pareça, ainda é melhor tê-la à alternativa do caos.
Muitos dos senhores devem revirar os olhos ao ler isso e pensar que a ausência de uma autoridade seria melhor que a autoridade exercida por certos pais e certos governantes.
Creio que os senhores que pensaram isso nunca passaram pela orfandade ou pela guerra civil.
Acreditem, sempre é possível piorar. A própria história nos conta que um governo fraco geralmente é melhor do que nenhum governo.
Os limites da Obediência.

No entanto, é verdade que, em alguns casos, mesmo autoridades legítimas demandam coisas que nós, em boa consciência, não precisamos ou devemos obedecer. Vamos falar agora de alguns limites que a obediência deve respeitar.
O primeiro limite é o da competência. Isso significa que cada autoridade tem um campo no qual ela pode exercer seu poder. Dentro desse campo, obedecemos. Fora dele, não há nenhuma obrigação moral em obedecer.
Por exemplo: um professor deve ter plena autoridade em sua matéria. Ele determina as tarefas a serem cumpridas, as avaliações necessárias, os textos a serem lidos. Ele não pode, no entanto, dar ordens a seus alunos que ultrapassem esses limites. Não pode mandar que lhe dêem dinheiro ou que façam qualquer coisa fora de sala que não esteja relacionada à sua função. Essas coisas estão fora de sua competência.
Outro exemplo é a autoridade paterna: o pai pode determinar quase todas as coisas na vida dos filhos que estão sob sua tutela. Ele não pode, no entanto, forçá-los a seguir essa ou aquela vocação. A vocação pessoal está fora da competência paterna e deve sempre ser uma escolha livre.
Em suma, obedecemos a autoridade naquilo que lhe compete. Não temos obrigação de nada mais que isso.
Um segundo limite é a consciência.
Ninguém, e eu repito, NINGUÉM tem o direito de exigir a prática da imoralidade ou do pecado. Se qualquer autoridade te comanda a fazer algo que seja imoral, criminoso ou pecaminoso, essa autoridade não só pode como deve ser ignorada.
Nenhuma autoridade terrestre está acima da autoridade da reta consciência, e a autoridade celeste jamais contradirá a esta. Se contradisser, pode-se ter certeza de que não é verdadeiramente celeste.
Dito isso, se o comando da autoridade está dentro de sua competência, ele é legítimo; e, se o comando não contradiz DIRETAMENTE a moral ou a fé, temos sim a obrigação moral de obedecer, quer nos agrade ou não.
Querer obediência sem mostrar-se digno dela.
Esse é um dos mais terríveis erros de toda autoridade legítima. Muitas vezes somos colocados em posição de comando e temos de lidar com a desobediência de nossos tutelados.
Quando isso acontece, desejamos exigir essa obediência, pois nos é devida. No entanto, precisamos lembrar de algo importante: não estamos lidando com anjos.
Sim, seria ideal que nossos tutelados tivessem já virtude suficiente para obedecer sem serem incentivados. No entanto, na maioria das vezes não é o caso.
Por isso, não basta apenas exercer autoridade, é preciso mostrar-se digno dela. E o único caminho para isso é a formação pessoal.
Precisamos mostrar com nossas ações, gestos e com o uso do nosso tempo que nossa liderança é confiável.
Isso vale para qualquer tipo de liderança.
Você confiaria em um professor que parece não ter certeza sobre o que ensina? Ou um sacerdote que não parece ter muita vida de oração?
Pois sim, um líder bem formado, seguro e estudado passa muito mais confiança a seus protegidos. Quando o líder parece tolo, perdido ou exasperado, a rebeldia se torna muito mais presente.
Percebemos esse problema ainda mais nitidamente nos pais e mães.
Existe uma tendência geral de dedicar-se muito à formação intelectual, profissional, às vezes até espiritual, mas pouco à formação para a educação dos filhos. As pessoas imaginam que essa pedagogia é natural e não exige formação.
Infelizmente isso não é verdade. É necessário formar-se, e muito!
Só aqueles que empreenderem os esforços da própria formação vão superar certos desafios, enquanto outros vão chafurdar neles sem saber o que fazer.
Em particular, o problema da Obediência.
Por isso, tenho um convite a te fazer: clique no link abaixo e inscreva seu email para receber uma sequência de três emails com ainda mais conteúdo sobre a formação da Obediência, além de um 4º email te mostrando uma ferramenta maravilhosa que vai mudar as coisas na sua casa.
Escrito por Prof. João Gabriel
1 Comentário
Grata por transmitir tanto conhecimento.