Virtudes HUMANAS?

Para ter virtudes humanas, é preciso primeiramente ser humano.

A primeira coisa necessária para começar a trilhar um caminho de virtude é a compreensão de que a própria virtude não surge de alguma espécie de norma externa e arbitrária e nem mesmo de um acordo entre as partes de uma comunidade, mas da própria natureza humana.

Já falamos longamente do assunto em outro artigo e não pretendo me alongar muito nessa distinção. No entanto, é a partir dela que compreendemos que quanto mais conhecemos a estrutura do ser humano, mais capacitados nos tornamos para consertar o que em nós está fora do lugar.

Pense em um conserto que precisa ser feito no seu carro: para quem você levaria o automóvel? Para alguém que soubesse de carros, não? Alguém que conhecesse sua estrutura e funcionamento muito bem, fosse por teoria ou prática.

A mesma coisa acontece com o ser humano.

Não podemos esperar nos tornarmos bons educadores se não conhecemos aquilo que estamos querendo formar, nem quando estamos educando a nós mesmos!

Por isso, é preciso começar nosso estudo moral pelo conhecimento da estrutura da pessoa humana.

Virtudes Humanas

Estrutura do Ser humano.

A primeira coisa a ressaltar é que nós não somos seres simples, mas complexos. Isso não significa dizer que somos incompreensíveis, apenas que somos compostos de diferentes dimensões, das quais, a saber, as duas principais são as do corpo e do espírito.

É necessário entender, em primeiro lugar, que somos uma unidade substancial, uma união perfeita entre o material e o imaterial; portanto, somos tanto nosso corpo quanto nosso espírito.

Ambas essas dimensões compõem a nossa pessoa.

Isso significa dizer que ambos o corpo e o espírito compartilham da mesma dignidade. Não existe uma “parte má” e uma “parte boa” na estrutura humana.

No entanto, existe sim uma hierarquia.

Hierarquia é uma palavra injustamente estigmatizada por nossa cultura de índole marxista. Ela significa simplesmente uma divisão de funções para o bem do todo.

Funções entre as quais, de fato, está a comandante.

Na hierarquia da estrutura humana, o comando cabe àquela parte que conhece com mais perfeição a realidade e é capaz de, portanto, ordenar as coisas, incluindo a própria pessoa, para seus fins últimos.

Para deixar mais fácil: a parte que comanda deve ser aquela capaz de identificar e escolher o bem real. Tal parte seria o Espírito.

A função de mobilizar-se e situar-se no mundo caberia ao Corpo.

Nesse sentido, o Corpo se dividiria ainda em duas dimensões: uma é a mais estritamente material, a parte biológica crua, chamada pelos antigos de Vegetativa.

A outra seria aquela responsável pela percepção e pela pulsação, chamada de Sensitiva ou Sensibilidade.

O que chamamos de Virtude humana é o estado facilitador que auxilia todas essas dimensões a trabalharem bem em suas funções, não atrapalhando umas às outras e conduzindo o organismo inteiro ao fim para o qual foi criado.

Em suma, num ser humano virtuoso, o Espírito conhece a Verdade e escolhe pelo Bem real. Os Afetos amam o Bem e detestam o mal. E o Corpo cumpre as funções para as quais foi criado com proporção e precisão de objeto.

Esse é o ser humano ordenado.

Agora, vejamos cada uma dessas estruturas e suas capacidades uma a uma.

A Biologia e suas Virtudes

Nossa parte mais material é nossa dimensão biológica, que nos situa no mundo e nos permite interagir com ele.

A princípio, a parte biológica teria duas funções principais: manter a vida material e reproduzir a forma da espécie na matéria. Em palavras mais simples: sobreviver e reproduzir.

Para esses fins, a nossa parte biológica exerce as seguintes atividades:



  • Nutrição: é a capacidade dos corpos de adquirir matéria externa e transformá-la em si mesmos ou em energia para as funções vitais. Seus objetos são os alimentos apropriados para essa função na proporção apropriada. É regulada pelas virtudes da Moderação e da Sobriedade.

  • Descanso: é a necessidade corpórea de repor as energias e processar os materiais adquiridos na digestão. Está profundamente ligado com a faculdade do Crescimento, característica de todos os seres vivos. É regulado pelas virtudes da Diligência e da Laboriosidade.

 

  • Reprodução: é a capacidade dos corpos vivos de reproduzir sua forma na matéria. No caso do ser humano, no entanto, vai além disso. É a maneira através da qual o ser humano torna-se co-criador de almas imortais com o próprio Deus. Mais do que mera reprodução, no ser humano gera-se o princípio da Família, protegida pelas virtudes da Castidade e da Modéstia.

Se você quer realmente entender como educar cada uma dessas estruturas para a Maturidade, verifique a nossa Coleção Forja!

 

 

 

Como expressão do Espírito, o corpo humano é extremamente digno. No entanto, percebemos com essa descrição que, embora sejamos biológicos, não somos APENAS biológicos.

Existem outras dimensões, mesmo dentro do próprio Corpo, que superam as funções puramente biológicas.

A Afetividade e suas Virtudes

A parte Sensível de nossa alma é aquela responsável por captar o mundo e reagir a ele.

Isso se dá da seguinte maneira:

Primeiramente, captamos o mundo a partir de nossos Cinco Sentidos Externos. Eles são, por assim dizer, as portas e janelas de nossa alma.

Captados os sensíveis, estes passam a um sentido interno que os reúne em Imagens. Esse é o Sentido Comum, o primeiro dos Quatro Sentidos Internos.

Formulada a Imagem, ela é armazenada no segundo sentido interno, chamado Imaginação. Esta é responsável por guardar as imagens e associar uma imagem a outra, gerando o que chamamos de Criatividade.

Armazenada a Imagem, ela então é contrastada com o Instinto por um terceiro sentido interno: a Cogitativa, que vai gerar, a partir dessa comparação, um desconforto específico dentro do corpo.

Se a imagem for contrastada com o instinto é percebida como conveniente à sobrevivência, o desconforto gerado cresce quando nos afastamos do objeto e se acalma prazerosamente quando nos aproximamos. Ou seja, nos sentimos mal se saímos de perto do objeto e bem se o possuímos.

O nome que damos a esse desconforto que nos atrai pelo bem presente é Afeto Concupiscível, o qual é regulado pela virtude da Temperança.

Se, por outro lado, a imagem é tida como inconveniente pelo instinto, o desconforto vai aumentar se nos aproximarmos e diminuir se nos afastarmos ou destruirmos o objeto.

Chamamos esse desconforto que nos leva a fugir/combater um mal presente em vista de um bem futuro de Afeto Irascível. Este é regulado por virtude da Fortaleza.

É a cogitativa, então, que vai perceber afetivamente as imagens que nos chegam pelos sentidos.

Quando ela chega a um veredito sobre que afeto gerar, ela guarda a situação associada àquele afeto em um quarto sentido interno: a Memória Sensível.

É justamente esse processo de perceber afetivamente e guardar na memória sensível que gera o Hábito moral.

Por mais que essa dimensão seja evidentemente mais nobre que a puramente biológica, percebemos aqui que, embora sejamos nossos Afetos, não somos APENAS nossos Afetos.

Existe uma última dimensão ainda mais excelsa que as duas anteriores.

O Espírito e Suas Virtudes

Virtude Humanas

Nossa dimensão espiritual é aquela mais central em nossa estrutura. Enquanto as outras duas nos aproximavam das plantas e animais, essa nos aproxima dos anjos e do próprio Criador.

Nela mora nossa “imagem e semelhança”. Isso porque ela nos permite, em uma escala infinitamente menor, fazer coisas que o próprio Deus faz: contemplar a Verdade e agir Livremente.

A primeira parte, a do conhecimento da verdade, se dá por uma faculdade espiritual chamada Inteligência e ocorre da seguinte maneira:

A Inteligência se debruça sobre as Imagens guardadas na Imaginação e retira delas o que chamamos de universal.

Um exemplo: digamos que na imaginação de uma criança existem as imagens de alguns cachorros.

Com o tempo, sua inteligência vai separando dessas imagens o que sempre está presente: pelos, latido, rabo abanando, nariz gelado. E deixando de fora o que, às vezes, está presente, às vezes não: tamanho, cor do pelo, ferocidade, etc.

A Inteligência está separando o acidental e deixando apenas o essencial. Desse essencial, a Inteligência vai formular uma ideia: o Conceito Cachorro. Essa ideia agora se aplica não só àqueles cachorros que estão na Imaginação, mas a qualquer cachorro.

Se essa ideia de cachorro corresponder aos cachorros reais, a inteligência chegou ao conhecimento de uma Verdade.

O nome clássico desse processo é Abstração.

Quando a inteligência chega a um conceito, este é armazenado em uma faculdade espiritual chamada Memória Intelectiva.

Tendo contemplado a verdade das coisas, a Inteligência, então, comunica a uma outra faculdade espiritual aquilo que é o melhor fim a ser buscado e quais são os melhores cursos de ação possíveis.

Essa terceira faculdade espiritual, chamada Vontade, vai escolher pelo melhor e mobilizar todas as estruturas da pessoa para alcançar esse fim. É nela que reside nossa autodeterminação.

Quando a Inteligência conhece a Verdade e a Vontade escolhe pelo Bem real, a pessoa humana alcança o que chamamos Liberdade.

Dentro da vida prática, a virtude que aperfeiçoa a Inteligência para a Ação é chamada Prudência. Aquela que inclina a Vontade a dar a cada coisa o bem que lhe é devido chama-se Justiça.

A Pessoa Humana e Suas Virtudes

Virtude Humanas

Por fim, tudo isso se unifica em um composto individual que chamamos Pessoa.

Qual dessas dimensões é a da pessoa? Todas elas funcionando como uma unidade.

O núcleo da pessoa, entretanto, é o Espírito.

No entanto, essa unidade tem algumas consequências interessantes: a pessoa humana é sempre única e irrepetível. Além disso, ela tem um “dentro” acessível apenas a ela e que só ela pode abrir a outra pessoa.

Chamamos esse “dentro” de Intimidade.

Através de sua vontade, entretanto, a pessoa pode abrir voluntariamente esse dentro a outra pessoa, dando um pouco de si e tornando-se vulnerável no processo. No entanto, vai também se abrindo a uma relação pessoal real, uma partilha mútua da interioridade que gera um laço espiritual.

Essa abertura é o Amor no sentido humano mais elevado.

No entanto, quando esse Amor se abre às mais perfeitas Pessoas, ocorre algo extraordinário que muda inteiramente a pessoa humana.

O Fim Último do Ser Humano

Se unirmos tudo o que apresentamos dentro da estrutura humana, perceberemos que o ser humano é um ser capaz de viver, reproduzir, atrair-se, enfrentar, conhecer a Verdade, escolher o Bem e amar as pessoas.

O ser humano é um ser capaz de viver, reproduzir, atrair-se, enfrentar, conhecer a Verdade, escolher o Bem e amar as pessoas.

Essa constatação é muito relevante, posto que as capacidades operativas de cada ser revelam o que ele foi feito para buscar, seu Fim Último.

É importante também mencionar que, quando um ser é capaz de buscar algo, ele tem a propensão e tendência de buscar o melhor que se pode encontrar desse “algo”.

Sendo assim, partindo das faculdades superiores do ser humano, este encontra seu Fim Último quando encontra com as mais perfeitas Pessoas, que são também, ao mesmo tempo, o Sumo Bem e a Suma Verdade.

Conhecer, Servir livremente e Amar a Deus

Quando a pessoa humana entra nessa relação de Amor sublime, ela mesma é modificada, pois é natural que aquele que ama, que comunica sua intimidade e recebe a do outro, com o tempo se transforme no Amado.

Assim, suas faculdades superiores são elevadas pelas virtudes Teologais (virtudes que brotam do conhecimento pessoal de Deus: teo – logos): A Inteligência é aperfeiçoada pela Fé, a Vontade pela Caridade e a Memória Intelectiva pela Esperança.

E não para por aí! O Concupiscível é chamado a apaixonar-se pelo Sumo Bem, enquanto o Irascível é conduzido a enfrentar o Mal e combater o bom combate.

Mesmo a reprodução se transforma em ato de co-criação com o próprio Deus! Torna-se Família.

A nutrição se torna Comunhão.

A Vida se torna Eterna.

Isso é o que nós somos. E para isso fomos feitos.

Viva de acordo: isso é Virtude.

Você deseja isso para si e sua família, mas não sabe por onde começar? Sente-se perdido e gostaria de ajuda para começar a mudança? Te convido a se tornar um dos nossos alunos do Curso “O Recomeço”.

Nele, te damos um passo a passo de como introduzir as primeiras virtudes do lar que vão possibilitar a mudança de vida!

Escrito por Prof. João Gabriel

2 Comentários

  • Carol

    Vim do YouTube. Parabéns, professor João Gabriel, pelos conteúdos. São muito bons, estão contribuindo bastante com a edificação da minha família.

  • Jocelaine

    Vim do YouTube.

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